quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Curta Metragem On Line: Festival Córtex homenageia João César Monteiro

A retrospectiva completa das curtas-metragens do realizador de Recordações da Casa Amarela abre esta quinta-feira à noite a programação do festival de Sintra.
O festival fará uma exibição integral das curtas de João César Monteiro DANIEL ROCHA



E foi assim que Luís Miguel Cintra, feito Lívio, aconchegou os dedos à testa de João de Deus dizendo-lhe, “Vai!”. Desvia o olhar para o horizonte, e acrescenta: “Dá-lhes trabalho”. Nesse momento, das portas de uma catacumba iluminada arrasta-se João César Monteiro que nem Nosferatu e desvanece numa ruela da Madragoa, em Lisboa. Sim, trata-se do final de Recordações da Casa Amarela, mas neste ano em que se assinala o 10º aniversário da morte do realizador, o Córtex convidou Ana Isabel Strindberg, sua companheira e assistente de realização, a fazer a programação do primeiro dia do festival de curtas-metragens, que lhe será dedicado na íntegra.

“Não tinha qualquer interesse em homenageá-lo, visto que o João continua vivo nos seus filmes”, disse Ana Isabel Strindberg ao PÚBLICO. “Interessava-me mais ver o estado das películas.”

O festival, que vai na 4ª. edição, decorre até domingo no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, e fará, pela primeira vez numa só sessão (esta quinta-feira, às 21h30), a exibição integral das curtas de João César Monteiro. Nove, no total, que serão exibidas por ordem cronológica, desde o documentário de 1969, Sophia de Mello Breyner Andresen (ainda assinado como João César Santos), e a sua estreia na ficção, Quem espera por sapatos de defunto morre descalço (1971), até às três sequências desaproveitadas deAComédia de Deus, e tornadas curtas-metragens em 1995,Lettera Amorosa, Passeio com Johnny Guitar eO Bestiário ou Cortejo de Orfeu.

Estes cinco filmes serão projectados em película de 35mm. Os quatro restantes foram lançados pela RTP, entre 1979 e 1989, como curtas televisivas para os programas Contos Tradicionais Portugueses e Clips sobre Fernando Pessoa.

“Demorei seis meses para conseguir reuni-las todas”, confessou Ana Isabel Strindberg. “Quando contactei a Zon Lusomundo, foi-nos indicado que as curtas estavam perdidas”. Desde então, foi uma “batalha” para conseguir as películas pretendidas. “Chegou uma altura em que a Zon nos disse que podíamos exibir uma cópia das curtas, mas que tinha de ser em DVD.”

A retrospectiva de João César Monteiro no Córtex não se vai limitar, contudo, à exibição das curtas-metragens. No final, haverá uma conversa-debate que junta várias figurasque trabalharam e privaram com o realizador ao longo dos anos. Entre eles, e a convite de Ana Isabel Strindberg, estarão os cineastas João Miller Guerra e Patrick Mendes, os investigadores Liliana Navarra e Emanuel Cameira.

Também Joaquim Pinto, que foi amigo de João César Monteiro e produtor de Recordações da Casa Amarela e A Comédia de Deus, mesmo se não confirmou ainda a sua presença, escreveu um texto testemunhando as adversidades que passou com o realizador durante as filmagens do segundo dos filmes referidos, onde faz também referência ao fim da relação de trabalho entre ambos. “Fiquei a conhecer melhor o João. O inverso também será verdade, apesar de ele só ser capaz de não ter dúvidas em relação aos amigos mortos”, diz no seu texto.

Uma selecção de fotografias do realizador, dentro e fora do plateau– tiradas pelos cineastas Jorge Silva Melo e Margarida Gil e pelos fotógrafos Richard Dumas, Pedro Lopes e Augusto Brázio, que trabalharam directamente com João César Monteiro –, será também exposta no festival.

No restante programa, o Córtex mantém as secções de competição nacional e internacional, como o objectivo de exibir e premiar sangue novo no cinema de curta-metragem.



Para saber mais sobre Curta Metragem On Line acessecursosraizesculturais.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário