segunda-feira, 18 de maio de 2015

Produção de curta-metragem muda trajetória de presas na Grande BH


Filme acompanha participação de detentas em criação teatral e de músicas. Projeto voluntário recupera mulheres do Presídio José Abranches.




Antes de ir para a cadeia por tráfico de drogas, Aline Alves Jorge, de 23 anos, levava uma “vida loka" de sucesso, dinheiro e "muita fama”. Presa há dois anos anos e cinco meses, a jovem compôs um rap no qual assume os crimes que cometeu e dá um conselho à filha de quatro anos: “Não entra nessa vida, não me vê como espelho”. (Veja acima o documentário completo) 

"Entrei no crime tentando subir na vida. (...) Ganhei sucesso, dinheiro e muita fama. Conceito na favela e orgulho das crianças.Fui vida loka pra sustentar a família. A geladeira nunca mais ficou vazia (...)" 

Trecho da música de MC Lobinha

A música de Aline, a MC Lobinha, é o fio condutor de um curta-metragem produzido dentro do Presídio José Abranches, em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O processo de elaboração do vídeo “Encontro Marcado” mudou a rotina das celas e também a autoestima de 25 detentas. O G1 conversou com algumas detentas e com os produtores do curta-metragem no presídio.“A quarta-feira, que eles vinham, era um dia diferente para nós. Porque aqui os dias são tristes”, contou Aline. O publicitário Diogo Torino, de 34 anos, e o ator Marcos Eurélio, de 38, conduziram juntos o projeto de filmagem, no período de março a dezembro do ano passado, com o objetivo de levar até o presídio tecnologia digital que pudesse transformar de alguma forma a realidade das detentas.
Detentas posam fazendo sinal de liberdade em presídio José Abranches (Foto: Daniela Garcia/G1)


Ana Carolina dos Reis, de 27 anos, lembrou da primeira vez que teve contato com a câmera de vídeo levada por Diogo. “Eu me identifiquei muito. Comecei a sonhar em trabalhar com isso quando sair daqui. Também passei a fazer planos para quando eu puder ficar com a minha filha”, detalhou.

Antes de Diogo chegar com o projeto Laboratório Multimídia Móvel, Marcos já estava à frente da oficina “Despertando o Sentir”, sempre às quartas no horário de banho de sol, de 9h às 11h, desde 2012. As duas iniciativas foram realizadas de forma voluntária, sem contar com recursos públicos ou de qualquer instituição. “Eu trazia para elas exercícios de expressão corporal, a gente cantava e também pedia a elas para escrever depoimentos”, contou o ator.

Produção de curta-metragem leva a mudança de comportamento de presidiárias  (Foto: Daniela Garcia/G1))


Diogo decidiu apoiar o projeto do amigo Marcos assim que leu a letra do rap “Não me vê como espelho” da MC Lobinha. “Eu fiquei muito animado de produzir a música, de fazer as batidas”, lembra. Ao longo do processo, outras mulheres também começaram a compor músicas. “Eu percebi que poderia me superar”, relatou, Natália Gomes de Guimarães, de 22 anos.

Segundo a pedagoga Fabiana Guimarães, que trabalha há sete anos no presídio, a gravação do vídeo "deu um gás” na vida desse grupo de presidiárias. “Elas se identificaram em cantar rap, algo que tem muito a ver com o que elas viviam antes de serem presas”, afirmou.
Estúdio foi improvisado no almoxarifado (Foto: Daniela Garcia/G1)


A unidade prisional mantém hoje 145 detentas. Todas elas têm o direito da remissão da pena, se frequentarem as aulas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) ou se trabalharem na limpeza e jardinagem da fazenda. As oficinas também tiveram efeito no bom comportamento das detentas, segundo Fabiana. “Diminuiu essa questão de desrespeito com os agentes penitenciários”, disse.

De acordo com a pedagoga, o trabalho conduzido por Marcos ajudou as jovens no resgate da infância. “Muitas delas não viveram muito bem essa fase da vida”, explicou. Eliane Florinda dos Santos, de 33 anos, lembrou de cada detalhe do figurino ou das dificuldades superadas para incorporar os papéis da peça "A vida como ela é", de Nelson Rodrigues. “Era um momento que a gente esquecia dos problemas”, contou.

Inspiração para mudar de vida

Presa por tráfico de drogas por três anos e cinco meses, Tatiane Fernandes, de 28 anos, disse que a participação no curta “Encontro Fechado” foi decisiva para a sua vida fora do José Abranches. “Cantar, fazer o vídeo, tudo isso inspira a gente sair e mudar de vida”. Tatiane está em liberdade condicional desde 17 de abril deste ano.Por isso eu sonho com a tal liberdade. Pra você não ver sua mãe atrás das grades.

"Mais aí fora vai ser tudo diferente. Vou recompensar o tempo que estive ausente. eu te amo e crime não compensa. Coroa de bandido é caixão ou sentença (...)"
Trecho de rap de MC Lobinha

Como "guerreira” do tráfico, ela conta que revendia porções de cocaína e crack no aglomerado Pedreira Prado Lopes, na Região Nordeste de Belo Horizonte. Antes de participar das oficinas, Tatiane acreditava que assim que saísse da Abranches iria voltar para o crime. “Lá é um lugar muito triste, você só pensa em coisa ruim. Mas eu comecei a fazer teatro e isso foi saindo da minha cabeça”.
Segundo Tatiane, o rap da MC Lobinha, em homenagem à filha, a levou a acreditar que poderia ser uma boa mãe para os dois filhos. “Essa música me inspirava. A gente cantava nas celas. Saí de lá determinada a ser exemplo para os meus filhos”, disse.

Os dois projetos foram paralisados esse ano por falta de recursos. “Não temos apoio nem para pagar a gasolina”, desabafou Diogo. Funcionários do presídio e as detentas lamentaram o fim das atividades. O publicitário e o ator continuam a ter contato com as mulheres que deixaram a Abranches. “A maioria mudou de vida, não está mais no crime. Eu vou até batizar o filho de uma delas”, contou, Marcos.
Projeto, conduzido por Marcos (esq.) e Diogo, é motivação para mudança de vida (Foto: Daniela Garcia/G1)

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